Resgate

Uma baleia na Amazônia - Parte 2

O desafio de cuidar de uma baleia em um rio da Amazônia.


Depois de dias de busca, finalmente havíamos encontrado a Baleia Minke Antártica. Pela primeira vez eu a estava vendo, através da janela do helicóptero, enquanto sobrevoávamos a comunidade de São José do Arapixuna, procurando um lugar para pousar. Uma coisa era certa, esta baleia não iria conseguir voltar sozinha para o mar. Além da distância de quase mil quilômetros que ela teria de percorrer para chegar à foz do rio Amazônas, havia uma infinidade de rios e igarapés no caminho por onde ela poderia se perder. Se quiséssemos que ela tivesse uma chance de sobreviver nós teríamos que levar a minke de volta para o mar. Para isso, durante os três dias de busca, eu e Fábia havíamos montado um plano.

Precisaríamos conseguir um barco com espaço suficiente para a baleia e construir uma piscina com lona que permitisse manter um volume de água onde ela pudesse flutuar. Depois teríamos que usar um guindaste para ergue-la numa maca e colocá-la na piscina dentro do barco. Com ela embarcada seriam três dias de navegação descendo o Tapajós e o Amazônas até chegar no mar onde poderíamos soltá-la. No papel parecia bem simples!

Mas antes de por o plano em ação, precisávamos de um local onde a minke pudesse ser mantida, examinada e tratada até que estivesse apta a fazer a viagem rumo ao mar.  Isso também nos daria tempo para organizar a logística do transporte.  Decidimos que, quando a gente encontrasse a baleia, iríamos fazer um cercado com redes. Um local onde ela pudesse ser mantida durante  a fase de tratamento. Haviam redes no IBAMA de Santarém, apreendidas de pescadores ilegais, e elas seriam utilizadas para a construção do recinto.

Pousamos com o helicóptero na margem do rio, desembarcamos com os equipamentos e ele decolou para ir buscar o resto da equipe. A baleia estava a uns 50 metros da margem, com a cabeça voltada para terra. O local tinha um fundo com lodo e ela estava num ponto com cerca de um metro de profundidade, o que fazia com que ela encostasse a barriga no fundo e estivesse com o dorso parcialmente para fora d'água. Haviam algumas pessoas e uma canoa junto à baleia e outras pessoas na beira do rio.

Conversamos com os moradores locais que nos informaram que a baleia havia sido encontrada logo quando amanheceu, parada naquele mesmo local. Contamos para eles toda a história, inclusive que ela provavelmente estava ferida pela lança de um morador de outra comunidade e que precisávamos contar com o apoio deles. Isso significava manter um mínimo de pessoas próximo à baleia e evitar  muito ruído para não aumentar o estresse dela.

Esse contato com as pessoas é muito importante. Num encalhe é normal que as pessoas sintam curiosidade e preocupação com o animal e queiram ajudar. Tenho visto que, se a gente explica os motivos e mantém as pessoas informadas, a grande maioria entende e colabora no resgate. A pior atitude que se pode ter num encalhe de baleia viva e chegar mandando todos se afastarem, sem explicar os motivos, como se o fato de você ser um especialista lhe desse este direito. Isso não funciona.

Uma vez fui atender uma baleia-jubarte de  12 metros de comprimento, encalhada em Búzios, Rio de Janeiro. Quando cheguei ao local estava uma confusão de pessoas na praia ao redor da baleia. Conversei com os representantes das instituições presentes e depois de dividirmos as tarefas começamos a montar o cordão de isolamento. Parte do pessoal que estava lá eram surfistas locais que haviam virado a noite com a baleia, tocando violão para que ela não se sentisse sozinha. Afinal, se as jubartes são conhecidas como baleias cantoras talvez elas apreciem música! Se você quiser ouvir o canto de uma baleia-jubarte é só clicar aqui.

Conversei com os surfistas, agradeci o que eles tinham feito pela baleia e pedi o apoio deles. Não dava para todos ficarem ao redor da baleia, pois além de estressá-la isso estimularia outras pessoas a quererem passar pelo cordão de isolamento e ficar junto da jubarte. Combinamos que três deles ficariam pegando baldes de água do mar para manter a baleia molhada e quando cansassem faríamos um revezamento, assim todos teriam chance de ajudá-la. Para os que iriam esperar eu passei as informações básicas sobre as jubartes e o que iríamos fazer e pedi que ficassem junto ao cordão de isolamento informando às pessoas que estavam chegando e dizendo o motivo delas não poderem se aproximar da baleia. Funcionou muito bem.

De volta à baleia minke, pedi para o pessoal que fosse ficar na margem não deixar outras pessoas entrarem na água e explicar que a baleia estava ferida e iríamos tentar tratá-la. Uma pessoa que tinha um pequeno barco ajudou a transportar a maleta com equipamentos e medicamentos para perto da baleia, servindo de base de apoio flutuante.

Antes de entrar na água os moradores me avisaram que no local haviam arraias com ferrão e que a dor provocada pela ferroada era muito forte. Recomendaram que eu arrastasse os pés ao invés de caminhar, pois assim evitava pisar nelas. Aproveitei para perguntar se por lá havia candiru e eles disseram que sim. O candiru (Vandellia cirrhosa) é um peixe que habita os rios da bacia amazônica e que tem o péssimo hábito de entrar em cavidades do corpo como o ânus e a uretra onde abre as nadadeiras no formato de guarda-chuva para se manter preso.  Ele se alimenta de sangue e de outros tecidos do corpo, por isso é também conhecido como peixe-vampiro. Depois de instalado somente com cirurgia para ser retirado.

Entrei no rio e fui até onde a baleia estava. A água era escura e mais quente que o mar na Bahia durante o verão. Algumas pessoas da comunidade ficaram por lá para ajudar.  A primeira coisa que fiz foi medir o comprimento da minke deste a extremidade da cabeça, chamada de rostro, até o encontro das duas metades da cauda, chamado de reentrância caudal. Com o comprimento eu poderia estimar o peso. Com o peso estimado poderia calcular a dose dos medicamentos. Também poderia ter noção se era um animal adulto ou juvenil. Se fosse uma fêmea adulta eu precisaria considerar a possibilidade dela estar gestante o que tornaria qualquer manobra para colocá-la no barco mais arriscada. Além disso, nós precisaríamos do comprimento e peso para poder escolher o barco e guindaste para o resgate.

Enquanto isso, Fábia entrou em contato com o veterinário Jairo Moura e a bióloga Ana Ely Melo, que formavam nossa equipe, confirmando que tínhamos encontrado a baleia e que o helicóptero estava indo buscá-los. Ela passou a localização exata e pediu para o pessoal do IBAMA usar um barco para trazer 500 metros de rede de malha grossa, que usaríamos para fazer o cercado.

A baleia mediu 5,5 de comprimento e estimei que pesaria umas 4 toneladas.  Nesta espécie o filhote nasce com cerca de 2,5 metros de comprimento.  Nossa baleia ainda não tinha atingido a maturidade sexual, era um juvenil. Ela não estava muito magra, o que era um bom sinal.  As minkes, assim como as jubartes, passam o inverno e primavera no Brasil sem se alimentar e depois migram para águas frias onde passam o verão comendo krill. Então não precisaria pensar em alimentá-la, pelo menos não imediatamente.

A pele já não estava tão brilhante como eu tinha visto nas fotos tiradas em 15 de novembro. Estava mais opaca, sem brilho e com bastante lama.  Ela permanecia parada, mas respirava com força e numa boa frequência. Como a água estava sustentando seu corpo isso facilitava sua respiração. Muitas baleias que encalham e ficam com o corpo completamente no seco tem dificuldade para respirar pois o peso do corpo comprime os pulmões.

Eu precisava localizar a ferida que tinham feito nela. Coloquei a máscara de mergulho e o snorkel, mergulhei na água e descobri que a água era muito turva. Eu literalmente não enxergava nem a palma da minha mão na frente do rosto. 

Examinar uma baleia ou golfinho é sempre um desafio. Você não consegue apalpar os órgãos ou sentir os linfonodos como a gente faz num cão. Nos cetáceos maiores não dá para examinar as mucosas e nem auscultar o coração como você faria num cavalo. Também não se consegue medir a temperatura corporal se não tiver um termômetro com um longo cabo extensor e na maioria das vezes o ânus está encostado na areia da praia e você não consegue mover um animal que pesa muitas toneladas.

O que normalmente dá para fazer é controlar a frequência respiratória, que é um bom indicador de como o animal está, examinar o corpo visualmente quando a baleia está completamente fora d'água e, com um pouco de sorte, coletar uma amostra de sangue para rodar um hemograma e bioquímica sérica que te dê algum indicativo do que pode estar errado com seu paciente.

Eu estava com uma baleia quase completamente submersa, numa água turva onde eu não conseguiria enxergar nada. Precisei improvisar. Se não dava para enxergar a baleia eu iria usar as mãos para apalpar o corpo dela até encontrar a ferida. Como ela tinha 5,5 metros não demoraria muito, pior se fosse uma baleia-azul que  pode chegar até 33 metros de comprimento, aí seria um longo exame.

A parte mais perigosa de uma baleia é a nadadeira caudal. A cauda é  capaz de impulsionar uma baleia por milhares de quilômetros e  durante um salto tirar dezenas de toneladas completamente para fora d'água. Os golpes com a cauda também são usados pelas baleias para se defenderem de ataques de orcas e tubarões.

Então iniciei o exame da baleia pela cabeça para ela perceber o que eu estava fazendo e também para que eu pudesse avaliar se ela estava incomodada. Comecei passando a mão de cima para baixo, do topo da cabeça até chegar ao fundo do rio onde ela estava apoiada, então movi minha mão alguns centímetros em direção à cauda e subia apalpando até dorso. Comecei pelo lado esquerdo e fui seguindo da cabeça em direção à cauda.

Ela se manteve tranquila enquanto eu ia examinando. Passei pela nadadeira dorsal e comecei a examinar o pedúnculo, que é a parte após a nadadeira dorsal onde o corpo da baleia começa a se afinar até chegar na nadadeira caudal. O pedúnculo é composto basicamente por músculos e tendões que revestem a coluna vertebral sendo responsável pela movimentação da cauda.

Nem sinal de ferida do lado esquerdo. Fiquei de lado, um pouco afastado e com cuidado examinei a nadadeira caudal, depois passei para o lado direito e fiz o caminho contrário, vindo da cauda em direção à cabeça. Não demorou muito e achei a ferida.

Ela estava no lado direito, na metade de baixo do pedúnculo. Com cuidado eu comecei a examinar a ferida. Ela tinha a largura de quatro dedos da minha mão, uns 8 centímetros, e sua profundidade permitia que os dedos afundassem quase completamente na ferida, o que dá uns 7 centímetros. A lança tinha penetrado na camada de gordura, que nas baleias é sua reserva de energia e isolante térmico, e chegado até a musculatura que tinha sido atingida superficialmente. Felizmente naquele local não havia órgãos importantes que pudessem ser atingidos.

Resolvi fazer uma tentativa de ver a ferida. Mergulhei até ficar com a máscara quase encostada na ferida, mas realmente não dava para enxergar nada. Continuei com o exame, em busca de outras lesões, até chegar na cabeça, mas aquela foi a única ferida que encontrei.

Durante o exame descobri o sexo da baleia. Nas baleias os órgãos genitais ficam internalizados, para reduzir o atrito com a água, dentro da fenda genital. Nas fêmeas a fenda genital fica muito próxima ao ânus, enquanto nos machos ela fica mais para frente a meio caminho entre o ânus e a cicatriz do umbigo. Consegui localizar a fenda genital e pela sua posição estávamos com um menino encalhado.

Durante todo o tempo do exame ele permaneceu quieto. Não sabia se isso era um bom ou mau sinal. Uma baleia encalhada muito quieta pode estar com um comprometimento severo, ter uma encefalite ou pode estar em choque. Mas, apesar de quieta, a frequência respiratória estava boa. Tentei examinar os olhos, mas ele os mantinha quase completamente fechados. Isso em geral acontecem com as baleias quando estão num ambiente muito claro.  Mas deu para perceber o reflexo quando toquei a pálpebra. Ela estava alerta em relação ao que estava ocorrendo.

Era um dia de sol forte e estávamos apenas a dois graus de latitude abaixo da linha do Equador. Cobrimos o dorso da minke com lençóis que eu tinha trazido na minha maleta de resgate. As baleias têm uma epiderme muito fina e a exposição ao sol poderia causar queimaduras severas na sua pele. Por isso, é sempre recomendável cobrir  a baleia com panos de cor clara, mas ficar atento para deixar o orifício respiratório descoberto para que ela possa respirar livremente.

Eu iria aguardar a chegada do restante da equipe, que estava vindo de helicóptero, para tentarmos coletar uma amostra de sangue para os exames. Mas por causa da ferida, do aspecto da pele e por todo o estresse que este animal estava passando, estando a vários dias em um ambiente completamente desconhecido, resolvi que valia a pena administrar uma dose de antibiótico de amplo espectro de ação.
Eu preferia ter mais informações antes de administrar a medicação, pelo menos o resultado do hemograma. Mas na melhor das hipóteses eu só teria um resultado no dia seguinte e nada garantia que a baleia iria permanecer ali. Então resolvi que deveria aproveitar aquele momento e administrar o antibiótico. Se ela estivesse com uma infecção bacteriana o medicamento iria ajudar a combater a doença.

Eu optei por administrar oxitetraciclina, que é um antibiótico que além de combater uma variedade grande de bactérias tem a vantagem de poder ser administrado com dose única. Calculei a dose considerando que ela pesaria 4 toneladas e usando cálculo alométrico. Este é um assunto muito complexo para tratar aqui e que costumo abordar nos meus cursos para estudantes de medicina veterinária. 

De forma muito resumida, quando a gente tem uma espécie onde não há estudos sobre a dose de um medicamento para ela, podemos calcular a dose usando como base outra espécie onde a dosagem do medicamento é conhecida e utilizando a taxa metabólica e o peso para calcular o fator de conversão.

O melhor local para aplicação de medicamentos em baleias é no pedúnculo, pois é uma região com a musculatura bem desenvolvida e onde a camada de gordura é menos espessa. Com a dose calculada eu precisaria de várias seringas e uma agulha com 12 cm de comprimento que conseguisse passar a camada de gordura e penetrar no músculo. Felizmente tinha tudo pronto na maleta de equipamentos. Só havia um pequeno problema, o pedúnculo estava embaixo d'água.  Para medicar a baleia era preciso erguer o pedúnculo até o dorso ficar fora d'água.

A baleia estava tranquila. Houve um momento em que ela tinha se movido um pouco em direção à margem e estava ficando mais exposta ao sol e nós tínhamos conseguido empurra-la para trás sem que ela esboçasse reação. Então resolvemos tentar erguer o pedúnculo. Fiz uma tentativa e ela deixou, então pedi a um dos moradores do local para ficar no meu lugar mantendo o pedúnculo suspenso para que eu fizesse a medicação.

Comecei a administrar o antibiótico mantendo a agulha no local e trocando as seringas que ficavam vazias. Como era um volume relativamente grande eu precisaria dividir a dose em vários locais de aplicação. A oxitetraciclina é um medicamento difícil de aplicar e dolorido por ser oleoso. Administrei parte da dose e resolvemos dar um tempo para a baleia, eu e meu ajudante descansarmos. Voltamos com as injeções e numa das trocas de local, quando retirei a agulha começou a ocorrer um pequeno sangramento.

Provavelmente eu tinha atingido um pequeno vaso sanguíneo, mas não era nada que afetasse uma baleia de quatro toneladas. Pressionei o local com meu dedo para esperar  que o sangue coagulasse. Depois de uns segundos  tirei o dedo, mas ainda estava saindo um pouco de sangue, por isso pressionei novamente o local. Enquanto eu aguardava parar o sangramento de repente lembrei que eu estava na Amazônia e me bateu uma dúvida  que precisei perguntar para os moradores.

"Aqui no rio tem piranha"? 

Houve um pequeno coro dizendo "Têm" com bastante convicção. Estava com uma baleia sangrando num rio com piranhas.  Arraia, candiru e piranhas. Agora só faltava aparecer uma sucuri ou um jacaré-açu! Quase fiquei com saudades do mar onde se estivesse com uma baleia encalha só teria que me preocupar com uns  tubarõezinhos.

Continuamos com a medicação e numa das aplicações a baleia reagiu um pouco. Terminei a aplicação e resolvemos deixar ela descansar mais um pouco. Ficamos por lá conversando com os ribeirinhos, monitorando a baleia e aguardando a chegada da equipe. 

Estava tudo bem tranquilo e já estávamos vendo o helicóptero retornando quando a baleia começou a se agitar. Ela começou a se debater com muita intensidade. Já tinha visto baleias entrarem em choque e começarem a se debater antes de virem à óbito.  Por isso corri para preparar uma medicação para tentar combater o choque enquanto pedíamos para as pessoas se afastarem para não correrem o risco de se machucarem. A baleia começou a virar para o lado esquerdo e continuou a se debater até que me dei conta do que estava acontecendo.

Ela estava virando a cabeça em direção ao rio. Aquilo não era uma baleia entrando em choque, era uma baleia fugindo.


Assista ao vídeo com o tratamento da baleia e para não perder o final desta história acompanhe as publicações através do meu Facebook, Instagram ou Twitter.


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